Sempre senti algo que me incomodava quando via o Carnaval de São Paulo e suas torcidas organizadas de times de futebol travestidas de escolas de samba. Ao ouvir o CD dos sambas de 2012, finalmente consegui detectar o que era.
Para começar, há uma subversão de uma lógica própria do que é Carnaval. Ao comentar as obras de Rabelais, Bakhtin já mostrava que, na Idade Média, a festa do povo era a desforra contra os nobres e o poder estabelecido. Daí que é no Carnaval que o mendigo se veste de príncipe, o homem se veste de mulher, e toda a sorte de inversões se manifesta, até que a folia passe e tudo volte ao “normal”.
Pois quando as torcidas organizadas desfilam na avenida, não há fantasia, não há sonho, não há troca de papéis: são um monte de torcedores dos próprios times, do presidente ao passista, que fazem questão de reafirmar sua paixão pelo clube, nos enredos, nas cores, no distintivo costurado na bandeira, no hino tocado no cavaquinho. A presença dos torcedores na arquibancada, devidamente uniformizados e entoando os mesmos gritos de guerra dos estádios, reafirma ainda mais a sensação de que, ali, a ilusão de Momo passa longe e tudo é muito real.
Este ano, o samba da Gaviões da Fiel, que foi a primeira organizada a ter uma escola de samba, já começa com uma convocação à “nação corintiana” e o puxador reitera ao longo da letra que é “corintiano”, até porque o enredo homenageia o ilustre torcedor Luiz Inácio Lula da Silva, provavelmente como retribuição aos esforços do ex-presidente em convencer a Odebrecht a construir de graça o tão sonhado estádio, reforçada pelo dinheiro público doado pelo “generoso” Alckmin.
Para não ficarem atrás, Mancha Verde e Dragões da Real resolveram seguir o exemplo e montarem suas próprias escolas – a Mancha já há algum tempo, a Dragões debutando. Usam as mesmas estratégias dos colegas corintianos e acabam reproduzindo na avenida um triangular digno das finais do Paulistão.
E quando sai o resultado e uma delas não ganha, os vândalos que geralmente ocupam os postos de comando das organizadas incitam um já tradicional quebra-quebra que em nada lembra a alegria do Carnaval. E aí a coisa desanda: jurados são acusados de darem nota por paixão clubística, metrôs são depredados, a cidade vira um caos. E a fantasia do Carnaval vira caso de polícia.
Melhor seria deixar “cada macaco no seu galho”. Já houve um tempo em que os corintianos tinham simpatia pela Vai-Vai, os palmeirenses pela Camisa Verde e Branco e os são-paulinos pela Rosas de Ouro, como no Rio os rubro-negros têm uma queda pela Mangueira. Mas isso não era “regra”. Hoje, com a fantasia erradicada, ai do corintiano que ousar não torcer pela Gaviões e contra a Mancha e a Dragões. O círculo se fechou e a inventividade da folia despedaçou-se como confete e serpetina.
(Paulo Pellegrini)

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